CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gancho

RESIGNO-ME À FUNÇÃO


 


Isto de fazer poesia


não tem não mais que fazê-la.


Põe-se o papel, pega-se no lápis


e à moela da inspiração


falemos assim, digamos assim


não se diz não.


Começa-se não mal


que se comece bem


depois de tal


vem que as imagens


ou as comparações


escrevem e metem-se no meio


do que tu supões.


Depois dentre nós dois


ou o Céu ou o Inferno


ou Deus ou o Diabo


a bela ou o quadritérnio


inspiro-me, inspiras-te,


escrevo, começo e acabo.


Não abro o coração


em dois


que não vem depois


mais sangue fluido


a falar.


Abra-se antes na função


poética


coisas como o mar


o luar, o acabar das horas


e dos dias, na poesia romântica,


e na quântica outras


coisas, outras noções,


as quantas são que não


na romântica


aqui nesta já as leis


do coração, a função


entre dois corações


mas fisiologicamente


e na romântica


apaixonadamente mais quente.


Resigno-me à função


de fazer poesia.


Esfria-me é


o condão muitas vezes


mas a teses como


esta ou uma tese


qualquer


quero fazer eu


um poema também.


Resigno-me à função.


Submeto-me à função.


Subjugo-me à função.


E não vou mais longe.


Escrevo. Poesia.


O hábito faz o monge


e eu um dia vou longe


se escrever muito em poesia.


Doutra maneira dizia que


vale mais fazer a poesia


que dizê-la


que ela de guia tem


e serve-se de bela.


 


In “O Ar da Manhã”


Assírio & Alvim


 


António Gancho


(1940-2006)

0