CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gedeão

MINHA ALDEIA


 


Minha aldeia é todo o mundo.


Todo o mundo me pertence.


Aqui me encontro e confundo


com gente de todo o mundo


que a todo o mundo pertence.


 


Bate o sol na minha aldeia


com várias inclinações.


ângulo novo, nova ideia;


outros graus, outras razões.


Que os homens da minha aldeia


são centenas de milhões.


 


Os homens da minha aldeia


divergem por natureza.


O mesmo sonho os separa,


a mesma fria certeza


os afasta e desampara,


rumorejante seara


onde se odeia em beleza.


 


Os homens da minha aldeia


formigam raivosamente


com os pés colados ao chão.


Nessa prisão permanente


cada qual é seu irmão.


Valências de fora e dentro


ligam tudo ao mesmo centro


numa inquebrável cadeia.


Longas raízes que imergem,


todos os homens convergem


no centro da minha aldeia.


 


In “Teatro do Mundo”


Atlântida – Coimbra


 


António Gedeão **


1906 – 1997


 


** Pseudónimo de Rómulo de Carvalho

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