CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gedeão

SONETO


 


Não pode Amor por mais que as falas mude


exprimir quanto pesa ou quanto mede.


Se acaso a comoção falar concede


é tão mesquinho o tom que o desilude.


 


Busca no rosto a cor que mais o ajude,


magoado parecer aos olhos pede,


pois quando a fala a tudo o mais excede


não pode ser Amor com tal virtude.


 


Também eu das palavras me arreceio,


também sofro do mal sem saber onde


busque a expressão maior do meu anseio.


 


E acaso perde, o Amor que a fala esconde,


em verdade, em beleza, em doce enleio?


Olha bem os meus olhos, e responde.


 


In “Poesias Completas” (1956-1967)


Prefácio de Jorge de Sena


Sá da Costa Editora – Lisboa -1987


 


António Gedeão **


(1906-1997)


 


** Pseudónimo de Rómulo de Carvalho

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