CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gedeão

AURORA BOREAL


 


Tenho quarenta janelas


nas paredes do meu quarto.


Sem vidros nem bambinelas


posso ver através delas


o mundo em que me reparto.


Por uma entra a luz do Sol,


por outra a luz do luar,


por outra a luz das estrelas


que andam no céu a rolar.


Por esta entra a Via Láctea


como um vapor de algodão,


por aquela a luz dos homens,


pela outra a escuridão.


Pela maior entra o espanto,


pela menor a certeza,


pela da frente a beleza


que inunda de canto a canto.


Pela quadrada entra a esperança


de quatro lados iguais,


quatro arestas, quatro vértices,


quatro pontos cardeais.


Pela redonda entra o sonho,


que as vigias são redondas,


e o sonho afaga e embala


à semelhança das ondas.


Por além entra a tristeza,


por aquela entra a saudade,


e o desejo, e a humildade,


e o silêncio, e a surpresa,


e o amor dos homens, e o tédio,


e o medo, e a melancolia,


e essa fome sem remédio


a que se chama poesia,


e a inocência, e a bondade,


e a dor própria, e a dor alheia,


e a paixão que se incendeia,


e a viuvez, e a piedade,


e o grande pássaro branco,


e o grande pássaro negro


que se olham obliquamente,


arrepiados de medo,


todos os risos e choros,


todas as fomes e sedes,


tudo alonga a sua sombra


nas minhas quatro paredes.


 


Oh janelas do meu quarto,


quem vos pudesse rasgar!


Com tanta janela aberta


falta-me a luz e o ar.


 


In “Poesias completas”


Edições João Sá da Costa


 


António Gedeão **


(1906-1997)


 


** Pseudónimo de Rómulo de Carvalho

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