CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Gedeão **

POEMA DO HOMEM SÓ


 


Sós,


irremediavelmente sós,


como um astro perdido que arrefece.


Todos passam por nós


e ninguém nos conhece.


 


Os que passam e os que ficam.


Todos se desconhecem,


Os astros não se explicam:


arrefecem.


 


Nesta envolvente solidão compacta,


quer se grite ou não se grite,


nenhum dar-se de dentro se refracta


nenhum ser nós se transmite.


 


Quem sente o meu sentimento


sou eu só, e mais ninguém.


Quem sofre o meu sofrimento


sou eu só, e mais ninguém.


Quem estremece este meu estremecimento


sou eu só, e mais ninguém.


 


Dão-se os lábios, dão-se os braços,


dão-se os olhos, dão-se os dedos,


bocetas de mil segredos


dão-se em pasmados compassos;


dão-se as noites, dão-se os dias,


dão-se aflitivas esmolas,


abrem-se e dão-se as corolas


breves das carnes macias;


dão-se os nervos, dá-se a vida,


dá-se o sangue gota a gota,


como uma braçada rota


dá-se tudo e nada fica.


 


Mas este íntimo secreto


que no silêncio concentro,


este oferecer-se de dentro


num esgotamento completo,


este ser-se sem disfarce,


virgem de mal e de bem,


este dar-se, este entregar-se,


descobrir-se e desflorar-se,


é nosso, de mais ninguém.


 


(Teatro do Mundo)


 


In “Obra Completa de António Gedeão”


Editor Relógio d'Água


 


António Gedeão **


(1906-1997)


 


** Pseudónimo de Rómulo Vasco da Gama de Carvalho

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