CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Ladeira

OS AMIGOS


 


Quando se abrem os portões das grandes casas


e os amigos se entreolham antes de recolherem


aos respectivos túmulos


todos tão estranhamente corteses e finais


tão esquecidos de tudo o que um dia prometeram


tão emudecidos e gratos


tão suspensos de uma sede que os tornou irredutíveis


com os seus cabelos verdes e revoltos


a roupa que o corpo ainda segrega


por ter frio


por ser sempre de noite.


 


Amigos tímidos como certos dias de chuva


com os seus passos de borracha


os seus velhos sobretudos


as suas vozes em coro.


 


Os rostos inclinados sobre a cidade limpa


onde os vejo escrever, aplicadamente,


sobre o tampo metálico de uma mesa de café


a uma janela que dá sobre o Tejo


a ver passar o mundo.


 


Amigos pensativos como nuvens baixas,


como janelas abertas sobre praias escuras,


heras, campos de heras,


campos de ossos.


 


In “Eu vi jardins no inferno”


Palimpsesto Editora - 2010


 


António Ladeira


(N. 1966)

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