CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Ladeira

AS PESSOAS INSTANTÂNEAS


 


Quando a morte cai sobre as pessoas


é porque tem as asas cansadas


de dar voltas ao mundo.


 


Escolhe, hesitante, um dos seus cantores.


Escolhe quem, matinalmente, se cumprimenta.


 


A morte um dia esquece e desce


sobre os mesmos reverentes.


 


Esqueceu tudo o que dissera.


Ou fingiu que esqueceu tudo.


 


Alguém parou misteriosamente de falar.


 


E o silêncio quer dizer: “Acabou tudo.”


Quer dizer: “venham comigo até aquelas grutas!”


 


Agora finjam que estão velhos.


E que ninguém está nada triste.


 


Olhem para as vossas pernas,


não há pernas!


 


Nem mãos,


excepto para tocar em coisas indescritíveis.


 


As crianças que morriam.


 


Vou viver para a neve com os meus filhos


mergulhar nos rios soturnos e profundos


em segundos.


 


Por entre as algas e os peixes que prendiam


os braços das crianças que agarravam


os polvos misteriosos que ensinavam


a nadar os que mereciam.


Se a mim viesse algum dos mortos que ensinasse


a morrer a quem vivesse


a nadar a quem andasse


a dormir a quem falasse


 


Sem parar.


 


Imitaria a vida que vivesse


esse monstro que ensinasse


 


Que morresse.


 


Que matasse.


 


Sem matar.


 


In “A minha cor favorita é a neve”


Editora Escritor - 2000


 


António Ladeira


(N.1966)

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