CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Luís Moita

TUMULAR


 


Uma laje cinzenta nos separa
e dois metros de terra.

Tu, aí, és a paz.
Eu, aqui, sou a guerra.

Trago-te cravos, simples cravos brancos.
Cravos mais leves do que uma oração.
Sem a mácula seca das palavras
desfiadas em vão.

Sobre a laje os deponho, os distribuo
ao longo do que, certo, já não és:
ali, teus olhos líquidos e fundos;
aqui teu coração; além, teus pés.

Recolho então as flores decapitadas.
Amarro-as ao meu peito, a tudo o que vivi,
e regresso contigo à cidade habitada.

Tu, aí, és a paz: não precisas de nada.
Eu, aqui, sou a guerra: e preciso de ti.


 


 


In “Cidade Sem Tempo”


Edição do Autor – Lisboa  – 1985


 


António Luís Moita


N. 1925

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