TUMULAR
Uma laje cinzenta nos separa
e dois metros de terra.
Tu, aí, és a paz.
Eu, aqui, sou a guerra.
Trago-te cravos, simples cravos brancos.
Cravos mais leves do que uma oração.
Sem a mácula seca das palavras
desfiadas em vão.
Sobre a laje os deponho, os distribuo
ao longo do que, certo, já não és:
ali, teus olhos líquidos e fundos;
aqui teu coração; além, teus pés.
Recolho então as flores decapitadas.
Amarro-as ao meu peito, a tudo o que vivi,
e regresso contigo à cidade habitada.
Tu, aí, és a paz: não precisas de nada.
Eu, aqui, sou a guerra: e preciso de ti.
In “Cidade Sem Tempo”
Edição do Autor – Lisboa – 1985
António Luís Moita
N. 1925