LONGE DE TI
Longe de ti, na cela do meu quarto,
Meu corpo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do outro mundo, harto,
Pelo teu filho, minha mãe, não rezes!
Para falar, assim, vê tu! já farto,
Para me ouvires blasfemar, às vezes,
Sofres por mim as dores cruéis do parto
E trazes-me no ventre nove meses!
Nunca me houvesses dado à luz, senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fez homem, mágica bebida!
Fora melhor ter nascido, fora,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta costa de África da vida.
Coimbra, 1889
In " Só" – Fev.1989
Estante Editora
António Nobre
1867 – 1900