CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Nobre

LONGE DE TI


Longe de ti, na cela do meu quarto,

Meu corpo cheio de agoirentas fezes,

Sinto que rezas do outro mundo, harto,

Pelo teu filho, minha mãe, não rezes!

Para falar, assim, vê tu! já farto,

Para me ouvires blasfemar, às vezes,

Sofres por mim as dores cruéis do parto

E trazes-me no ventre nove meses!

Nunca me houvesses dado à luz, senhora!

Nunca eu mamasse o leite aureolado

Que me fez homem, mágica bebida!

Fora melhor ter nascido, fora,

Do que andar, como eu ando, degredado

Por esta costa de África da vida.






Coimbra, 1889


 


In " Só" – Fev.1989


Estante Editora


 


António Nobre


1867 – 1900




 


 

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