CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Nobre

PARA AS RAPARIGAS DE COIMBRA


 


Tristezas têm-nas os montes


Tristezas têm-nas o Céu


Tristezas têm-nas as fontes,


Tristezas tenho-as eu!


 


Ó choupo magro e velhinho,


Corcundinha, todo aos nós:


És tal qual meu avozinho,


Falta-te apenas a voz.


 


Minha capa vos acoite


Que é pra vos agasalhar:


Se por fora é cor da noite,


Por dentro é cor do luar...


 


Ó sinos de Santa Clara,


Por quem dobrais, quem morreu?


Ah, foi-se a mais linda cara


Que houve debaixo do céu!


 


A sereia é muito arisca,


Pescador, que estás ao sol:


Não cai, tolinho, a essa isca...


Só pondo uma flor no anzol!


 


Lua é a hóstia branquinha,


Onde está Nosso Senhor:


É duma certa farinha


Que não apanha bolor.


 


Vou a encher a bilha e trago-a


Vazia como a levei!


Mondego, qu'é da tua água?


Qu'é dos prantos que eu chorei?


 


No Inverno não tens fadigas


E tens água para leões|!


Mondego das raparigas,


Estudantes e violões!


 


- É só porque o mundo zomba


Que pões luto? Importa lá!


Antes te vistas de pomba...


- Pombas pretas também há!


 


Teresinhas! Ursulinas!


Tardes de novena, adeus!


Os corações às batinas


Que diriam? Sabe-o Deus...


 


Ó boca dos meus desejos,


Onde o padre não pôs sal,


São morangos os teus beijos,


Melhores que os do Choupal


 


Manoel no Pio repoisa,


Todas as tardes, lá vou


Ver se quer alguma coisa,


Perguntar como passou.


 


Agora, são tudo amores


À roda de mim, no cais,


E, mal se apanham doutores,


Partem e não voltam mais...


 


Aos olhos da minha fronte


Vinde os cântaros encher:


Não há, assim, segunda fonte


Com duas bicas a correr!


 


Os teus peitos são dois ninhos


Muito brancos, muito novos,


Meus beijos os passarinhos


Mortinhos por porem ovos.


 


Nossa Senhora faz meia


Com linha feita de luz:


O novelo é a lua cheia,


As meias são pra Jesus.


 


Meu violão é um cortiço,


Tem por abelhas os sons


Que fabricam, valha-me isso,


Fadinhos de mel, tão bons...


 


Ó fogueiras, ó cantigas,


Saudades! Recordações!


Bailai, bailai, raparigas!


Batei, batei, corações!


 


Coimbra, 1890


 


Canção da Felicidade


 


In ” Só” – Fev.1989


Estante Editora


 


António Nobre


(1867 - 1900)

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