CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Ramos Rosa

AS PALAVRAS


 


Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo


É um corpo que se tornou palavra


Segue-se a narrativa das transições:


as palavras identificam-se com o asfalto negro


o tropel das nuvens


a espessura azul das árvores acesas pelos faróis


o rumor verde


 


As palavras saem de uma ferida exangue


de teclas de metal fresco


de caminhos e sombras


da vertigem de ser só um deserto


de armas de gume branco


 


Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos


e há palavras como giestas vivas


 


Matrizes primordiais matéria habitada


forma indizível num rectângulo de argila


quem alimenta este silêncio senão o gosto de


colocar pedra sobre pedra até à oblíqua exactidão?


 


As palavras vêm de lugares fragmentários


de uma disseminação de iniciais


de magmas respirados


de odor de gérmen de olhos


 


As palavras podem formar uma escrita nativa


de corpos claros


 


Que são as palavras? Imprecisas armas


em praias concêntricas


torres de sílex e de cal


aves insólitas


 


As palavras são travessias brancas faces


giratórias


elas permitem a ascensão das formas


elevam-se estrato após estrato


ou voam em diagonal


até à cúpula diáfana


 


As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado


 


Que enfrentam as palavras? O espelho


da noite a sua impossível


elipse


saem da noite despedaçadas feridas


e são a minúscula luz das frestas


entre as pedras piramidais


 


In “Gravitações”


Coleção – De Viva Voz


Litexa Portugal – 1983


 


António Ramos Rosa


1924 – 2013

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