CÁ TE ESPERO...

Recordando... António Sardinha

CHUVA DA TARDE


 


 


Chuva da tarde, – melodia mansa,


desejos vagos de chorar baixinho...


Voltei aos meus caprichos de criança,


- só quero, Amor, saber do teu carinho!


 


Chuva da tarde...


                                   Na poeira ardente


cai um frescor inesperado e calmo.


É um frescor que purifica a gente


- como a leitura mística dum Salmo!


 


Floresçam jasmineiros e açucenas,


- acuda-se à tristeza das raízes!


Que tu, Amor, com tuas mãos pequenas,


as guardes da estiagem e as baptizes!


 


Meu coração doente remoçou-se,


quando o tocaram essas mãos piedosas...


Chuva da tarde, – enfermaria doce,


onde vão convalescer as rosas!


 


Chuva da tarde...


                                   Ao longo das varandas


reza mistérios lentos a noitinha.


Que bem não é sonhar em coisas brandas,


nas tuas brandas asas de andorinha!


 


Deixa que a sombra te emoldure a face,


- eleva no silêncio a tua voz!


O Cântico dos Cânticos renasce,


- diria até que se escreveu p'ra nós!


 


 


António Sardinha


1887 – 1925


 


 


 

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