POENTE
As minhas sensações – barcos sem velas –
Erram de mim. Occaso rôxo. Scismo.
Meus olhos de Não-ver-me são janellas
Dando sobre o abysmo.
Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora
Nostalgica de Si, mas eu de vê-las
Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas
Apavora.
Delirio rôxo d'agonia. Prece.
Poente feito noite. Escuridão.
Perturbo-me de mim em sensação
E dentro em mim desfallece
E anoitece
A sombra do meu Ser na solidão
Do dia que morreu
E se perdeu
E jámais amanhece.
Lisboa – 1914
(mantém a grafia da época)
In “ORPHEU”
Revista Trimestral de Literatura
Vol. I – 1915
Armando Côrtes-Rodrigues
(1891-1971)