CÁ TE ESPERO...

Recordando... Armando Côrtes-Rodrigues

POENTE


 


As minhas sensações – barcos sem velas –


Erram de mim. Occaso rôxo. Scismo.


Meus olhos de Não-ver-me são janellas


Dando sobre o abysmo.


 


Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora


Nostalgica de Si, mas eu de vê-las


Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas


Apavora.


 


Delirio rôxo d'agonia. Prece.


Poente feito noite. Escuridão.


Perturbo-me de mim em sensação


E dentro em mim desfallece


E anoitece


A sombra do meu Ser na solidão


Do dia que morreu


E se perdeu


E jámais amanhece.


 


Lisboa – 1914


 


(mantém a grafia da época)


 


In “ORPHEU”


Revista Trimestral de Literatura


Vol. I – 1915


 


Armando Côrtes-Rodrigues


(1891-1971)

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