CÁ TE ESPERO...

Recordando... Artur do Cruzeiro Seixas

UM BARCO SONHA COM OUTRO BARCO


 


Um barco sonha com outro barco


oferece-lhe orquídeas de som


um túmulo gótico limos todo o mistério


lá onde a abóbada assenta sobre a coluna vertebral


que guarda palavras algemadas


e os passos dos peregrinos a caminho da ausência.


 


Estamos a um dia do fim de qualquer coisa.


Pela mão que guardo em todos os peitos


pelo contínuo marulhar na solidão na minha fronte


por esta maresia que vinda do sonho


sobe e sufoca


pela noite que se exprime no mais profundo de cada dia


ofereço-te a eternidade


como um trapo velho dentro de mim.


 


Todos os comboios atravessam o meu corpo


todos os diamantes se suicidam à minha porta


todas as mãos têm movimentos copiados do mar.


 


Ao meu lado sobre mim dentro de mim


como ao fim das tardes no inferno


o segredo que a sete chaves guardamos


passam-no agora as árvores em voz baixa uma às outras.


 


Oh meu amor o fim não existe tudo é recomeço


e tudo recomeça pelo fim.


Não esqueças esses momentos de transgressão


mais vida do que a vida


como o cavalo que corre dentro de si próprio


cego


até o infinito que não há.


 


África 61


 


In “Homenagem à Realidade”


Editor Escrituras


 


Artur do Cruzeiro Seixas


(1920-2020)

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