CÁ TE ESPERO...

Recordando... Augusto Casimiro

PRIMAVERA DE DEUS


 


Primeira vez que os olhos meus rezaram,


Abranjendo o orizonte, o céu, o espaço,


E em meu olhar estático passaram


As coisas, num fraterno, unjido abraço;


 


Primeiro verso traduzindo a minha


Ânsia indomável de Beleza e cõr,


E primeira emoção, a que adivinha,


Em tudo quanto existe, igual Amor;


 


Primeira eterna ora admirável


Em que eu senti meu coração vibrando


Com as coisas, num ritmo inefável,


– Névoa, pedra a sonhar, fonte chorando…


 


Primeira vez que os braços meus cingiram


Um tronco viridente, ou a emoção


De que meus olhos tristes se cobriram,


Como abraçasse o próprio coração;


 


E a vez primeira em que na minha fronte,


Na minha lama simples, repoisou,


– Como oração de névoa sobre um monte, –


A consciência clara do que sou;


 


Primeiro dia iniciado puro,


– Todas as almas téem alvoradas –


Em que senti as coisas, de mãos dadas,


Caminharem comigo para o Futuro;


 


Primeira vez em que um sentir profundo,


Num delírio sagrado, adivinhou


Um invisível, transcendente mundo,


– E o silêncio e os mistérios escutou;


 


… Alma-fraterna que me disse tudo


E me ensinou a olhar e a perceber


A emoção deslumbrada, o sentir mudo,


De rocha ou tronco, ou de alvorada ou sêr;


 


Primeira vez em que caí de giolhos,


– Postas as mãos, a luz do sol no olhar –


Bebendo a luz divina pelos olhos,


Sentindo a sêde espiritual de amar;


 


Primeira vez em que chorei de encanto,


Primeira elevação religiosa


Da minha alma, enternecida, ansiosa,


A persentir em mim o heroi, o santo;


 


Quando, vivendo em mim profunda a vida,


Em minh’alma, vestida de esplendor,


Senti a própria alma renascida,


A aleluia, a anunciação do Amor;


 


Primeira vez em que na minha Arte,


Nos meus versos, – mãezinha –, te senti,


– Foi um passo que dei a procurar-te,


– Primeiro passo na ascenção p’ra ti!


 


… Como alguém que subisse a grande altura


E aos poucos fôsse p’ra tocar os céus…


– Que as almas sobem pela formosura,


– Ao Monsalvato onde floresce Deus.


 


– Deslumbramentos , emoção, bondade,


Foram degraus nesta ascenção de Amor,


– E as lágrimas – que toda a claridade,


– Toda a Vitória é ganha pela Dôr…


 


Há quanto tempo estava à tua espera?


Que saudosa emoção de uma outra vida,


Me ensinava a esperar a Primavera,


Sentindo a Primavera em mim florida?


 


Sabes, – mãezinha? – como a flor existe


Na semente que sonha, a germinar,


E a alegria maior num olhar triste,


– Porque ser triste é um modo de chorar;


 


Como o som no cristal, ansiosamente,


Espera que o libertem, e o granito


Sonha a libertação em luz ardente,


Na instantánea visão dum infinito;


 


– Assim, mãezinha, – a tua formosura


Desde o Princípio vive em minha vida,


E em ti floresce a minha vida pura,


Em perfeição e harmonia unjida…


 


Assim já noutras vidas pressentimos


Esta Vida-Maior que oje vivemos.


Já neste Amor outras paisagens vimos,


E outras dores puríssimas sofremos…


 


Já nos beijámos em crepúsc’los de oiro,


Nos confundimos num etéreo abraço!


– Fomos jóias, – Amor –, de igual tesoiro,


– Fomos luz e visão no mesmo espaço,


 


Fomos seiva num tronco aureolado


Em luz d névoa, em bênção de arrebol,


E o nosso Amor andou transfigurado,


Em beijos de oiro, em luz fecunda, em sol!


 


Tudo palpita em nós, tudo rodeia


O nosso Amor, – tudo êste Amor nos diz!


– E se quero cinjir a própria ideia,


– Nem eu compreendo como sou feliz!


 


 


Coimbra, Janeiro de 1910


 


In Revista “A Águia”


N.º 2 – 1.ª Série – Ano I – de 15 de Dezembro de 1910


 


Augusto Casimiro


1889 – 1967


 


 


MANTEM A GRAFIA DA ORIGEM


 

0