CÁ TE ESPERO...

Recordando... Azinhal Abelho

COMOÇÃO RURAL


 


Já não há quem queira dar


uma filha a um ganhão…


Senhor Pai, senhora mãe,


que grande desolação.


 


Já bati a sete portas


por mais de mil e uma vez;


Vá-se embora seu ganhão,


disseram com altivez…


A minha filha é prendada,


não é para qualquer tunante,


sabe ler, sabe escrever


e todo o seu consoante.


O que é que tem um ganhão?


Um azinho dum pau torto;


só vive das tristes ervas,


não tem onde cair morto.


 


Os olhos já não são olhos,


estão desfeitos em chorar,


porque a um pobre ganhão


já não há quem queira dar


nem mulher para dormir


nem a filha para mulher;


nem quem o ajude a vestir,


nem quem o ajude a morrer.


 


Ramos secos, estéreis flores,


pedras de arestas cortantes


perdidas num vendaval,


perdidas numa aflição…


Eu já não posso gritar;


Senhor Pai, senhora Mãe,


que grande desolação


nestes matagais com longes,


aonde os anjos se afundam


em humus e punição!


 


 


In “Antologia de Poetas Alentejanos”


Edição Câmara Municipal de Vila Viçosa – 1984


 


Azinhal Abelho


1916 – 1979


 

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