CÁ TE ESPERO...

Recordando... Camilo Castelo Branco

POEMA DEDICADO A ANA PLÁCIDO - 1857


 


Querida, o teu viver era um letargo,


Nenhuma aspiração te atormentava;


Afeita já do jugo ao duro cargo,


Teu peito nem sequer desafogava.


Fui eu que te apontei um mundo largo


De novas sensações; teu peito ansiava


Ouvindo-me contar entre caricias,


Do livre e ardente amor tantas delícias!


 


Não te mentia, não. Sentiste-o, filha,


Esse amor infinito e imaculado,


Estrela maga que incessante brilha


Da alma pura ao casto amor sagrado;


Afecto nobre que jamais partilha


O coração de vícios ulcerado.


Não sentes, nem recordas, já sequer?


Quem deste amor te despenhou, mulher ?


 


Eu não! Se muitos crimes me desluzem,


Se pôde transviar-me o seu encanto,


Ao menos uma só não me recusem,


Uma virtude só: amar-te tanto!


Embora injúrias contra mim se cruzem,


Cuspindo insultos neste amor tão santo,


Diz tu quem fui, quem sou, e se é verdade


O opróbrio aviltador da sociedade.


 


In “Citações e Pensamentos de Camilo Castelo Branco”


Org. de Paulo Neves Silva


Casa das Letras


 


Camilo Castelo Branco


(1825-1890)

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