CÁ TE ESPERO...

Recordando... Camilo Pessanha

CAMINHO


 


Tenho sonhos cruéis; n’alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...


 


Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!


 


Porque a dor, esta falta d’harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d’agora,


 


Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.


 


 


Clepsidra


 


In ”Ler Por Gosto”


Areal Editores


 


Camilo Pessanha


1867 – 1926


 

0