CÁ TE ESPERO...

Recordando... Camilo Pessanha

INTERROGAÇÃO


 


Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,


Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;


E apesar disso, crê? Nunca pensei num lar


Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.


 


Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.


E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.


Nem depois de acordar te procurei no leito


Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.


 


Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo


A tua cor sadia, o teu sorriso terno...


Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso


Que me penetra bem, como este sol de Inverno.


 


Passo contigo a tarde e sempre sem receio


Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.


Eu não demoro o olhar na curva do teu seio


Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.


 


Eu não sei se é amor. Será talvez começo...


Eu não sei que mudança a minha alma pressente...


Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,


Que adoecia talvez de te saber doente.


 


In “Poemas de Amor”


Versões Ana Leal


Edição Alma Azul – Janeiro.2006


 


Camilo Pessanha


1867 – 1926 

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