CÁ TE ESPERO...

Recordando... Camilo Pessanha

AO LONGE OS BARCOS DE FLORES


 


Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
– Perdida voz que de entre as mais se exila,
– Festões de som dissimulando a hora.


 


Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.


 


E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?


 


Só, incessante, um som de flauta chora...


 


(Clepsidra)


 


In ”Ler Por Gosto”


Areal Editores


 


Camilo Pessanha


(1867-1926)

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