CÁ TE ESPERO...

Recordando... Carlos Ramos

NOTAS INÚTEIS


 


Sacudo o sonho


como o resto do pó


de um velho casaco


para que a pele guarde em silêncio


a sua cicatriz


mas no mesmo sitio


vê-se claramente a queimadura


de outra ferida


combustão do homem


onde uma mulher terrível


lançou à distância


o seu dardo de silêncio


desfigurando-lhe o coração


das cinzas férteis


outra surgia lentamente


semente adormecida pelo frio


brotava do chão como uma casa luminosa


ligava a máquina nocturna


onde o homem fabricava as nuvens


e alimentava o fruto da paixão


o resto era sémen


lágrima


boca


escuridão.


 


In “O Mar Todo”


Edição do Autor, 2016


 


Carlos Ramos


(N.1967)

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