CÁ TE ESPERO...

Recordando... Catarina Nunes de Almeida

CÂNTICO DOS CÂNTAROS


 


Voltando um pouco atrás


à costura das fotografias


àquelas escuridão pulmonar onde te vi


pela primeira vez onde eras


mais que certo quase cavalo


quase branco


a galope nos meus dentes.


Fotografias do tempo em que chamavas


árvore de rapina ao instrumento


que te educava os dedos.


Um dedilhar de amigo


à beira do vinhal.


Um encantar de amigo.


 


Se te deixasse ficar à sombra


haveria ainda as linhas da tua mão


tão irregulares tão imponderáveis


como a chuva nas boas noites.


Haveria ainda o perfume das grainhas


na primeira curva da manhã.


Era no tempo das fotografias.


Agora, dizes tu, há o orvalho dos murtais


um cesto silencioso e humano.


 


Nunca saberás que isso a que chamas


silêncio orvalho


eu chamo música


e toco-a.


 


In “Bailias”


Deriva Editores – 2010


 


Catarina Nunes de Almeida


N. 1982

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