CÁ TE ESPERO...

Recordando... Célia Moura

NO ÚTERO E NO PÓ


 


Surges


Na cálida brisa da tarde,


Como Deusa


No cume da trave talhada


A ouro


Com rosto de prata,


Boca de serpente mansa,


Vestindo de fogo


O sexo.


 


És a mulher,


A prostituta doce


Dos seios firmes,


Da madrugada,


Dos vãos de escada…


Serpenteias em rituais loucos


Sob a máscara de cristal


Estilhaçada,


Chupando o sangue


Às rosas inventadas


Do Jardim.


 


Quem sabe se não serás a Musa,


Por quem os poetas clamam,


Ou o flagelo dos dias


E dos rostos baços?


Agora,


És somente


A Afrodite dos tempos


E do desalento.


Da carne!


 


Mulher,


Mito ausente


Na verdade e no ventre


Cuspindo a semente da raiva


Ao vento norte.


 


Mulher saudade,


Saudosa do regresso,


Dos hinos ao Sol,


Dos campos férteis do acaso,


E da Festa


Que as crianças sábias comemoram


No hálito das estrelas.


 


Terás talvez


Que encarnar a inocência


Na face uterina da noite,


Quando a voz estrangulada


Já não soar a grito,


Num pedestal de pó descarnado…


 


Uma sombra descerá


Com rosto brando


De anjo,


Sob a pia baptismal


Te despirá!


 


In “Vestida De Silêncio”


Universitária Editora 


 


Célia Moura


(N. 1971)

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