CÁ TE ESPERO...

Recordando... Célia Moura

DESTINO


 


Minhas mãos


Que jamais tocaram teu corpo, mulher,


Saboreiam teu andar de cigana,


Descalço,


Sobre o trigo.


Esse trigo já maduro, já rebelde do perder da infância…


Meu amor de abandono e de segredo,


Qual absinto.


Rosa vermelha entre os seios…ombros largos de Abril.


Meu destino.


 


Guardo teu riso de euforia a despertar todas as alvoradas


Minha amante, meu suplício…


 


Guardo tuas lágrimas de menina como uma promessa


Nenúfar de luar.


…E no teu ventre por mim incendiado de ternura,


Mulher,


Resplandecerá Semente


Tal como o lavrador lançando o arado à terra,


Só para ser tua eira, teu caminho, tua vereda,


O próprio pó que acaricia teus pés,


E poder contemplar-te para sempre


Na gestação de um hino,


Ou num grito,


Que minhas mãos erguem à ventania num compasso


De sinfonia,


Este pão, este caminho parido como um filho,


Este diálogo entre o silêncio e a coragem,


Entre o sangue e a seiva de um povo num agitar de bandeira,


No teu ventre de Mulher.


 


In “Enquanto Sangram As Rosas…”


Edição do autor com apoio da C.M. Loures


 


Célia Moura


(N.1971)

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