CÁ TE ESPERO...

Recordando... Cesário Verde

DESLUMBRAMENTOS


 


Milady, é perigoso contemplá-la,


Quando passa aromática e normal,


Com seu tipo tão nobre e tão de sala,


Com seus gestos de neve e de metal.


 


Sem que nisso a desgoste ou desenfade,


Quantas vezes, seguindo-lhes as passadas,


Eu vejo-a, com real solenidade,


Ir impondo toilettes complicadas!…


 


Em si tudo me atrai como um tesoiro:


O seu ar pensativo e senhoril,


A sua voz que tem um timbre de oiro


E o seu nevado e lúcido perfil!


 


Ah! Como me estonteia e me fascina…


E é, na graça distinta do seu porte,


Como a Moda supérflua e feminina,


E tão alta e serena como a Morte!…


 


Eu ontem encontrei-a, quando vinha,


Britânica, e fazendo-me assombrar;


Grande dama fatal, sempre sozinha,


E com firmeza e música no andar!


 


O seu olhar possui, num jogo ardente,


Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;


Como um florete, fere agudamente,


E afaga como o pêlo dum regalo!


 


Pois bem. Conserve o gelo por esposo,


E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,


O modo diplomático e orgulhoso


Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.


 


E enfim prossiga altiva como a Fama,


Sem sorrisos, dramática, cortante;


Que eu procuro fundir na minha chama


Seu ermo coração, como a um brilhante.


 


Mas cuidado, Milady, não se afoite,


Que hão-de acabar os bárbaros reais;


E os povos humilhados, pela noite,


Para a vingança aguçam os punhais.


 


E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,


Sob o cetim do Azul e as andorinhas,


Eu hei-de ver errar, alucinadas,


E arrastando farrapos – as rainhas!


 


 


“O Livro de Cesário Verde”


 


In “Ler Por Gosto”


Areal Editores


 


Cesário Verde


1855 – 1886

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