CÁ TE ESPERO...

Recordando... Cesário Verde

CADÊNCIAS TRISTES


 


                           A João de Deus


                       


Ó bom João de Deus, ó lírico imortal,


Eu gosto de te ouvir falar timidamente


Num beijo, num olhar, num plácido ideal;


Eu gosto de te ver contemplativo e crente,


Ó pensador suave, ó lírico imortal!


 


E fico descansada, à noite, quando cismo


Que tentam proscrever a sensibilidade,


E querem denegrir o cândido lirismo;


Porque o teu rosto exprime uma serenidade,


Que vem tranquilizar-me, à noite, quando cismo!


 


O enleio, a simpatia e toda a comoção


Tu mostras no sorriso ascético e perfeito;


E tens o edificante e doce amor cristão,


Num trono de bondade, a iluminar-te o peito,


Que é toda a melodia e toda a comoção!


 


Poeta da mulher! Atende, escuta, pensa,


Já que és o nosso irmão, já que és o nosso mestre.


Que ela, ou doente sempre ou na convalescença,


É como a flor de estufa em solidão silvestre,


Ao tempo abandonada! Atende, escuta, pensa.


 


E, ó meigo visionário, ó meu devaneador,


O sentimentalismo há-de mudar de fases;


Mas só quando morrer a derradeira flor


É que não hão-de ler-se os versos que tu fazes,


Ó bom João de deus, ó meu devaneador!


 


In “Cânticos do Realismos e Outros Poemas - 32 Cartas”


Edição Teresa Sobral Cunha


Relógio de Água Editores


 


Cesário Verde


(1855-1886)

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