OS FRUTEIROS, TOSTADOS PELOS SÓIS
Os fruteiros, tostados pelos sóis,
Tinham passado, muita vez, a raia,
E, espertos, entre os mais da sua laia,
– Pobres campónios – eram uns heróis.
E por isso, com frases imprevistas,
E colorido e estilo e valentia,
As haciendas que há na Andaluzia
Pintavam como novos paisagistas.
De como às calmas, nessas excursões,
Tinham águas salobras por refrescos;
E amarelos, enormes, gigantescos,
Lá batiam o queixo com sezões!
Tinham corrido já na adusta Espanha,
Todo um fértil plató sem arvoredos,
Onde armavam barracas nos vinhedos,
Como tendas alegres de campanha.
Que pragas castelhanas, que alegrão
Quando contavam cenas de pousadas!
Adoravam as cintas encarnadas
E as cores, como os pretos do sertão!
E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
A educação vistosa das viagens!
Uns por terra partiam, e estalagens,
Outros, aos montes, no convés dum brigue!
Só um havia, triste e sem falar
Que arrastava a maior misantropia,
E, roxo como um fígado, bebia
O vinho tinto que eu mandava dar!
Pobre da minha geração exangue
De ricos! Antes, como os abrutados,
Andar com os sapatos ensebados,
E ter riqueza química no sangue!
In "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886"
Organização Silva Pinto
Typographia Elzeveriana - 1887
Cesário Verde
(1855-1886)