CÁ TE ESPERO...

Recordando... D. Francisco Manuel de Melo

EM DIA DE CINZA, SOBRE AS PALAVRAS: "QUIA PULVIS ES"


 


Melhor há de mil anos que me grita


Uma voz, que me diz: "És pó da terra!"


Melhor há de mil anos que a desterra


Um sono que esta voz desacredita.


 


Diz-me o pó que sou pó, e a crer me incita


Que é vento quanto neste pó se encerra;


Diz-me outro vento que esse pó vil erra...


Qual destes a verdade solicita?


 


Pois, se mente este pó, que foi do mundo?


Que é do gosto? Que é do ócio? Que é da idade?


Que é do vigor constante e amor jocundo?


 


Que é da velhice? Que é da mocidade?


Tragou-me a vida inteira o mar profundo!


Ora quem diz: - "sou pó" - falou verdade.


 


In “Antologia da Poesia Barroca Portuguesa”


 


D. Francisco Manuel de Melo


(1608-1666)

0