CÁ TE ESPERO...

Recordando... David Mourão-Ferreira

SONETO DO AMOR DIFÍCIL


 


A praia abandonada recomeça


logo que o mar se vai, a desejá-lo:


é como o nosso amor, somente embalo


enquanto não é mais que uma promessa...


 


Mas se na praia a onda se espedaça,


há logo nostalgia duma flor


que ali devia estar para compor


a vaga em seu rumor de fim de raça.


 


Bruscos e doloridos, refulgimos


no silêncio de morte que nos tolhe,


como entre o mar e a praia um longo molhe


 


de súbito surgido à flor dos limos.


E deste amor difícil só nasceu


desencanto na curva do teu céu.


 


In “Obra Poética”


Assírio & Alvim


 


David Mourão-Ferreira


(1927-1996)

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