CÁ TE ESPERO...

Recordando... David Mourão-Ferreira

NATAL, E NÃO DEZEMBRO


 


Entremos, apressados, friorentos,


Numa gruta, no bojo de um navio,


Num presépio, num prédio, num presídio,


No prédio que amanhã for demolido...


Entremos, inseguros, mas entremos.


Entremos, e depressa, em qualquer sítio,


Porque esta noite chama-se Dezembro,


Porque sofremos, porque temos frio.


 


Entremos, dois a dois: somos duzentos,


Duzentos mil, doze milhões de nada.


Procuremos o rastro de uma casa,


A cave, a gruta, o sulco de uma nave...


Entremos, despojados, mas entremos.


De mãos dadas talvez o fogo nasça,


Talvez seja Natal e não Dezembro,


Talvez universal a consoada.    


 


 


In “Cancioneiro do Natal”


(Prémio Nacional de Poesia – 1971)


Edições Rolim – 1986


 


David Mourão-Ferreira


1927 – 1996


 

0