CÁ TE ESPERO...

Recordando... David Mourão-Ferreira

PRESÍDIO


 


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.


Que dizer do pescoço, às vezes mármore,


às vezes linho, lago, tronco de árvore,


nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?


 


E o ventre, inconsistente como o lodo?...


E o morno gradeamento dos teus braços?


Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:


é também água, terra, vento, fogo...


 


É sobretudo sombra à despedida;


onda de pedra em cada reencontro;


no parque da memóra o fugidio


 


vulto da Primavera em pleno Outono...


Nem só de carne é feito este presídio,


pois no teu corpo existe o mundo todo!


 


In "Eros de Passagem, Poesia Erótica Contemporânea",


Selecção e prefácio de Eugénio de Andrade,


Ed. Campo das Letras - 1997


 


David Mourão-Ferreira


(1927 - 1996)

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