CÁ TE ESPERO...

Recordando... David Mourão-Ferreira

TERNURA


 


Desvio dos teus ombros o lençol,


que é feito de ternura amarrotada,


da frescura que vem depois do sol,


quando depois do sol não vem mais nada...


 


Olho a roupa no chão: que tempestade!


Há restos de ternura pelo meio,


como vultos perdidos na cidade


nde uma tempestade sobreveio...


 


Começas a vestir-te, lentamente,


e é ternura também que vou vestindo,


para enfrentar lá fora aquela gente


que da nossa ternura anda sorrindo...


 


Mas ninguém sonha a pressa com que nós


a despimos assim que estamos sós!


 


In "Infinito Pessoal"


Guimarães Editores


 


David Mourão-Ferreira


(1927-1996)

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