CÁ TE ESPERO...

Recordando... Edmundo Bettencourt

POEMA DE AMOR


 


A noite é cheia de vales e baías.


E do meu peito aberto um rio largo de sangue...


Águas densas, de correntes lentas,


serpentes mortas a arrastarem-se.


Águas?


Águas negras, pastosas, alcatrão rolante.


Mas águas puras, verde-claras, atraindo


a margem donde os crocodilos fogem mastigando.


Águas em transparências lucilantes, para cima,


e as estrelas do mar, um polvo e um mefistófeles


ficam no ar sobre ilhéus e lodosos calhaus


que se descobrem.


Plantas brancas e extáticas...


Lágrimas... nuvens... e a cabeça, o perfil,


os olhos, todo o corpo da mulher amada, a prostituta


antes de virgem, que é bela e feia, velha e nova,


e não conhece os filhos!


       


O fogo envolve essa mulher amada


e é um guindaste erguendo-a e atirando-a,


enquanto dispersas pelo chão brilham mandíbulas


naturalmente à espera...


 


In “Poemas Surdos'”


Assírio & Alvim


 


Edmundo Bettencourt


(1889-1973)

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