CÁ TE ESPERO...

Recordando... Edmundo de Bettemcourt

PASSIVIDADE


 


Passividade suave e feiticeira


tentou-me, em tua bôca mal pintada,


nos teus olhos azuis d’alucinada,


na estopa a rir da tua cabeleira.


 


Minha arte d’amar, pelotiqueira,


deu fôgo à tua carne inanimada,


tornando mais gentil e articulada


a boneca que fôsses duma feira.


 


Levando ao ar um braço, eras adeus


a uma estranha mulher que em ti morrera


e cujo busto nu vejo entre véus…


 


E ao descerrares a acre flôr da bôca


a tua voz sonâmbula, de cêra,


já era um éco d’alma em alma ôca!


 


Coimbra, 1926


 


(mantém a grafia original)


 


In “Presença”


Fôlha de Arte e Crítica


Nº 1 - 10 de Março de 1927


Pág. 6


 


Edmundo de Bettemcourt


(1899-1973)

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