CÁ TE ESPERO...

Recordando... Eduarda Chiote

NÃO HÁ FRONTEIRA


 


O Poeta diz: a vida


é uma «merda» que precisa ser vista com o máximo


requinte.


O requinte do olhar. Olhar que o obrigue a pecar.


Porque a vida


tal como o olhar


exerce-se fora da inocência dos sentidos


numa mesma intenção


e cumplicidade: a da boca


cega


que procura já, da morte, o peito recém-nascido


e canibal.


Porque é nesse altar


onde o pavio aceso toda a noite fulgura


que os lábios se entreabrem: flagelados de jejum


e castidade — céu despedaçado pela


águia fraccionando


o espaço


das cidades.


Não há intimidade no mal — escreve o poeta exilado.


Vinda de onde, então,


Poesia,


a poderosa luz da tua absurda


generosidade?


Do «animal que se sente no mundo como a água


na água?» — Não se sabe.


Escreve-se por nada, Arnaldo, para ninguém,


para nada.


Por isso, implacável, a ti mesma


eu me ofereço — um osso duro de roer


mas que ácido floresce


no aroma que mistura o oiro à merda e o mar


ao sal.


 


 


In “Poesia de Sempre”


Revista da Fundação Biblioteca Nacional


Nº 26 – Ano 14 – 2009


 


Eduarda Chiote


N. 1930

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