CÁ TE ESPERO...

Recordando... Eduardo Guerra Carneiro... Poeta do Séc. XX

BALADA DA CIDADE TRISTE


 


I


 


Saliente manhã


nas torres da praça


cinzenta de tédio


ou sono trocado


por verde e castanho


o tom deste dia


já gasto ainda antes


do uso o tomar


 


Calados os lábios


que novas nos trazes


passageiro trémulo


de mala tão velha


com longas perguntas


do país sonhado?


 


Sabemos o gosto


da verde romã


Trincámos o fruto


sem saber a forma


Igual é possível


ao rosto do dia


que cresce em metade


de frio


ou de fome


 


A longa viagem


espera o seu tempo


Em sangue marcada


a custo estancado


Retomo Outubro


em espera adiada


na véspera de nunca


partir ou ficar


 


Inverno! Ó Inverno!


Meu país cifrado!


As pedras


e a erva


crescendo nas ruas


da cidade morta


ontem metralhada


e ontem enterrada


nascendo às sete horas


na praça cinzenta


nos bancos de palha


de eléctricos sujos


da cor do limão


 


Na cidade triste


já morrem palavras!


 


II


 


Na triste cidade


de tristes cafés


de chuva a cair


nos olhos doridos


de tanto sofrer


são mesmo os sorrisos


trocados a medo


a sombra tão vaga


de pura alegria


que eu sei


e tu sabes


ser falsa esta música


no meio da praça


 


Na triste cidade


cidade em escarpas


desenho de vento


no arco das pontes


luzeiro de ruas


uma vez por ano


talvez por engano


talvez seja vinho


eu sei


e tu sabes


madrugada vem


cansados os gestos


da noite alegria


regressa o cinzento


a névoa


e a bruma


Dom Sebastião


num barco rabelo


virá


com tristeza


saber que morreu


 


 


In "Ao Porto" – Colectânea  


Org. Adosinda Providência Torgal


e Madalena Torgal Ferreira


1ª edição – Novembro 2001


Publicações Dom Quixote


 


Eduardo Guerra Carneiro


1942 – 2004  


 


 


 

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