CÁ TE ESPERO...

Recordando... Egito Gonçalves

FONS VITÆ


 


Dá o sangue mas está suspenso no ar:


venceu a força da gravidade


e ali prossegue, figura de martírio,


sangrando para a vasca. Personagens


em torno dela ajoelham. Não é


para menos: trata-se do Cristo


Redentor. O sangue faz ajoelhar


os poderosos que há séculos


fazem correr sangue alheio


em nome desse Cristo − prática normal


das religiões. Mistério é o modo como


veio sangrar a esta cidade, nas paredes


da Misericórdia. Mistério a que faltam


referências decerto condutoras ao ouro


brasileiro e a papéis perdidos


de doadores soterrados nos desvãos


anónimos da história, um puzzle


a que sempre faltam peças. Ali está ele,


fonte inesgotável na sua cruz,


fonte de vida segundo o título.


No fundo há uma paisagem, mas o Cristo


volta as costas à flora flamenga:


apenas sangra, não se sabe o que vê


suspenso sobre o mundo que não é o seu.


O rei que olha e medita o significado


daquele sangue (se é que é o rei)


irá erguer-se e finalmente assinar


o decreto da Santa Inquisição. Sairá


daquele quadro cheio de dúvidas, mas


o sangue continuará a correr, agora


fonte de morte − mas benzida


pelo selo real do Venturoso.


 


In “Entre Mim e a Minha Morte Há Ainda um Copo de Crepúsculo”


Campo das Letras - 2006


 


Egito Gonçalves


(1920 -2001)

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