CÁ TE ESPERO...

Recordando... E.M. de Melo e Castro **

ODE AO CIDADÃO ANÓNIMO


 


Tu, cidadão anónimo, igual a ti próprio e a mim/outro


Que compras tudo o que és capaz de comprar


E deitas para o lixo tudo o que compraste


 


Que ganhas a tua vida perdendo a tua vida


Vida que é pequena e que só tens uma


Mas finges ignorar


 


Que pagas as contas que fazes sem saber porquê


Mas esperas descontos nos contos do vigário


que os teus credores te contam


 


Tu que ainda há pouco alimentavas a ilusão


de que o que fazes é produtivo para o teu país,


vais verificando dia a dia


que o teu trabalho é inútil principalmente para ti


porque um dia te despedem


até ficares despido


 


porque quem não precisa de ti não quer senão o teu voto


e tu que te lixes no lixo


porque o trabalho que fizeste toda a vida


é muito mais bem feito por qualquer robot


e ninguém dá por isso se não for feito


por isso és despedido


Assim desfruta a tua liberdade de desempregado


o melhor que puderes


porque és livre e por isso descartável


 


Está é a mais extraordinária descoberta da sociologia neoliberal


cibernetizada e deves ficar feliz com isso!


 


Mas não digas a ninguém.


Chora essa tua felicidade sozinho.


 


Se és velho, nunca vás para uma casa de repouso.


Finge que trabalhas.


Finge que te pagam, mesmo sabendo que nada recebes


Porque dá mais gozo não receber um salário venenoso


Que é teu


Mas irá fortalecer o sistema capitalista


E o igualmente selvagem neoliberalismo…


De que tanto gostas


E em que votaste à toa!


 


In “15 Odes Ocas”


Editora Pé de Mosca


E.M. de Melo e Castro **


(1932-2020)


 


** Nome literário de Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro

0