CÁ TE ESPERO...

Recordando... Emanuel Félix

AS RAPARIGAS LÁ DE CASA


 


Como eu amei as raparigas lá de casa


 


discretas fabricantes da penumbra


guardavam o meu sono como se guardassem


o meu sonho


repetiam comigo as primeiras palavras


como se repetissem os meus versos


povoavam o silêncio da casa


anulando o chão os pés as portas por onde


saíam


deixando sempre um rastro de hortelã


traziam a manhã


cada manhã


o cheiro do pão fresco da humidade da terra


do leite acabado de ordenhar


 


(se voltassem a passar todas juntas agora


veríeis como ficava no ar o odor doce e materno


das manadas quando passam)


aproximavam-se as raparigas lá de casa


e eu escutava a inquieta maresia


dos seus corpos


umas vezes duros e frios como seixos


outras vezes tépidos como o interior dos frutos


no outono


penteavam-me


e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas


na primavera


 


não me lembro da cor dos olhos quando olhava


os olhos das raparigas lá de casa


mas sei que era neles que se acendia


o sol


ou se agitava a superfície dos lagos


do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas


as raparigas lá de casa


que tinham namorados e com eles


traíam


a nossa indefinível cumplicidade


 


eu perdoava sempre e ainda agora perdoo


às raparigas lá de casa


porque sabia e sei que apenas o faziam


por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade


o vício da virtude da sua imensa ternura


da ternura inefável do meu primeiro amor


do meu amor pelas raparigas lá de casa


 


Habitação das Chuvas          


 


In “121 Poemas Escolhidos”


Editor Salamandra


 


Emanuel Félix


1936 – 2004

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