CÁ TE ESPERO...

Recordando... Emanuel Félix

FIVE O'CLOCK TEAR


 


Coisa tão triste aqui esta mulher


com seus dedos pousados no deserto dos joelhos


com seus olhos voando devagar sobre a mesa


para pousar no talher


Coisa mais triste o seu vaivém macio


p'ra não amachucar uma invisível flora


que cresce na penumbra


dos velhos corredores desta casa onde mora


 


Que triste o seu entrar de novo nesta sala


que triste a sua chávena


e o gesto de pegá-la


 


E que triste e que triste a cadeira amarela


de onde se ergue um sossego um sossego infinito


que é apenas de vê-la


e por isso esquisito


 


E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos


seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado


o álbum a mesinha as manchas dos retratos


 


E que infinitamente triste triste


o selo do silêncio


do silêncio colado ao papel das paredes


da sala digo cela


em que comigo a vedes


 


Mas que infinitamente ainda mais triste triste


a chávena pousada


e o olhar confortando uma flor já esquecida


do sol


do ar


lá de fora


(da vida)


numa jarra parada


 


In “A Palavra o Açoite”


Centelha Editora – 1984


 


Emanuel Félix


(1936- 2004)

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