CÁ TE ESPERO...

Recordando... Eugénio de Andrade

ADEUS


 


Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,


e o que nos ficou não chega


para afastar o frio de quatro paredes.


Gastámos tudo menos o silêncio.


Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,


gastámos as mãos à força de as apertarmos,


gastámos o relógio e as pedras das esquinas


em esperas inúteis.


 


Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.


Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;


era como se todas as coisas fossem minhas:


quanto mais te dava mais tinha para te dar.


 


Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.


E eu acreditava.


Acreditava,


porque ao teu lado


todas as coisas eram possíveis.


 


Mas isso era no tempo dos segredos,


no tempo em que o teu corpo era um aquário,


era no tempo em que os meus olhos


eram realmente peixes verdes.


Hoje são apenas os meus olhos.


É pouco, mas é verdade,


uns olhos como todos os outros.


 


Já gastámos as palavras.


Quando agora digo: meu amor,


já não se passa absolutamente nada.


E, no entanto, antes das palavras gastas,


tenho a certeza


de que todas as coisas estremeciam


só de murmurar o teu nome


no silêncio do meu coração.


 


Não temos já nada para dar.


Dentro de ti


não há nada que me peça água.


O passado é inútil como um trapo.


E já te disse: as palavras estão gastas.


 


Adeus.


 


(Os Amantes Sem Dinheiro)


 


In “Antologia Breve”


Editora Limiar – Outubro.1985


 


Eugénio de Andrade


1923 – 2005

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