CÁ TE ESPERO...

Recordando... Eugénio de Andrade

Soneto XXV


 


Shelley sem anjos e sem pureza,


aqui estou à tua espera nesta praça,


onde não há pombos mansos mas tristeza


e uma fonte por onde a água já não passa.


 


Das árvores não te falo pois estão nuas;


das casas não vale a pena porque estão


gastas pelo relógio e pelas luas


e pelos olhos de quem espera em vão.


 


De mim podia falar-te,mas não sei


que dizer-te desta história de maneira


que te pareça natural a minha voz.


 


Só sei que passo aqui a tarde inteira


tecendo estes versos e a noite


que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós


 


(As Mãos e os Frutos)


 


In “Antologia Breve”


5ª ed. – Outubro.1985


Editora Limiar


 


Eugénio de Andrade **


(1923 – 2005)


 


** Pseudónimo de José Fontinhas

0