CÁ TE ESPERO...

Recordando... Eugénio de Castro

O AMOR E A SAUDADE


 


O Amor teve uma filha à qual chamou Saudade.


 


Vendo-a crescida


Vendo-a na idade


De entrar na vida,


Disse-lhe assim um dia:


 


"Envelheci; no meu jardim cai neve...


Já sinto a alma fria,


E no corpo entrará também o frio em breve...


 


De noite vejo só negrumes de ataúdes;


Tudo é inverno p'ra mim; abril, acho-o grisalho...


Velho e doente, é justo, filha, que me ajudes


No meu trabalho.


 


Auxilia-me pois! Quando os amantes,


O seio contra o seio,


Enleados estão em tão suave enleio,


Que as longas noites tomam por instantes,


Ao pé deles me querem sempre, e assim,


Se p'ra deixá-los, já cansado estou,


Começam a chamar por mim,


A perguntar-me para onde vou...


Nunca me deixam, nunca estou tranquilo!


 


Como o trabalho é rude, de hoje em diante.


Devemos reparti-lo,


Que eu já me sinto fraco e vacilante...


De hoje em diante, irei deitar os namorados,


Mas tu, Saudade, junto deles ficarás,


E ao chamarem por mim, em gritos sufocados,


Fingindo a minha voz, tu lhes responderás...


 


Fazem-me louco as noites mal dormidas,


E assim já poderei dormir um pouco,


E recobrar até as minhas cores perdidas...


Vamos! O velho sol já se extinguiu


E a lua branca rompendo vai..."


 


E a Saudade partiu


Atrás do Pai...


 


Desde essa noite azul, ébrios de pasmo e dor,


Os que se beijam com ansiedade


Adormecem ao pé do Amor


E acordam junto da Saudade...


 


In “O Amor na Poesia Portuguesa"


Ed. Família 2000


 


Eugénio de Castro


1869 – 1944

0