CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fátima Maldonado

QUANDO AO ADORMECER...


 


Quando ao adormecer


partimos à procura


da face dos antigos


amores que sufocados


renascem provisórios,


como se vai à pesca


levando numa caixa a isca torturada


ou na boca a faca se transporta


antes de mergulhar à procura das ostras,


entre as pálpebras sustemos,


sem sombra de recuo


a fé de destrinçar por entre moribundos


os limos dos desejos, a folga da tensão,


as faces dos amados.


É sempre em quartos baixos


de vidros sobre as portas


ao fundo de corredores


que se inclina a face por entre os nossos braços


e quando os nomes saltam da boca em alvoroço,


os ternos nomes libertos dos esquifes


os lázaros no fim sempre ressuscitados


a cabeça ao fazer o gesto do encontro


acorda o corpo vivo que se sente enganado


e vai para a cozinha remoendo ameaças


deitar da cafeteira o jorro reluzente.


 


In “Os Presságios”


Editorial Presença – 1983


 


Fátima Maldonado
N. 1941

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