CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernanda Botelho

DO OUTRO LADO DO RIO


 


Do outro lado do rio


cada voz é um poema.


Faz o barqueiro um desvio


vai-e-vem rema-que-rema


Ao outro lado do rio.


 


Todo o sol, a névoa, a noite


me condensa esta saudade


Nada impede que me afoite


em resguardos sem verdade,


ao outro lado, pela noite


 


Surgem estrelas nas mágoas,


nas mágoas do meu desterro:


atravessar estas águas


e reparar o meu erro


(o meu erro e as suas mágoas).


 


Do outro lado do rio


que imenso reino para mim


Aqui tenho fome e frio


Aqui para onde vim


Do outro lado do rio.


 


Guardo o sol na minha mão,


Fechado que mais não tenho.


Os meus sonhos onde irão,


Sendo eu aqui um estranho,


Um sol fechado na mão?


 


Coordenadas Líricas


 


In “Lisboa Com Seus Poetas”


Publicações Dom Quixote


 


Fernanda Botelho


(1926 – 2007)

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