CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Echevarría

DESCALÇA DE VIVER


 


Descalça de viver, anda sempre.


Enchia a rua quando não passava.


Mas, se passava, desfazia o tempo


e apagava a rua, os homens e as lágrimas.


 


Nem ela própria já vivia dentro


de si. A roupa que levava


tinha uma cor de triste e pensamento


que não se sente e não se vê. E nada


 


dela se via que não fosse um vento.


Nem um silvo ou perfume a denunciava.


Sabia-se, de certo, que vivia


 


porque o dia, a certas horas se quedava


pronto, parado, como não sendo dia.


Ela, descalça de viver, passava...


 


In "Sobre as Horas"


Moraes Editores


 


Fernando Echevarría


(1929-2021)

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