CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Namora

POR TODOS OS CAMINHOS DO MUNDO


 


minha poesia é assim como uma vida que vagueia pelo mundo,


 


por todos os caminhos do mundo,


desencontrados como os ponteiros de um relógio velho,


que ora tem um mar de espuma, calmo, como o luar


num jardim nocturno,


 


ora um deserto que o sim um veio modificar,


ora a miragem de se estar perto do oásis,


ora os pés cansados, sem forças para além.


 


Que ninguém me peça esse andar certo de quem sabe


o rumo e a hora de o atingir,


a tranquilidade de quem tem na mão o profetizado


de que a tempestade não lhe abalará o palácio,


a doçura de quem nada tem a regatear,


o clamor dos que nasceram com o sangue a crepitar.


 


Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte.


Que ninguém me peça nada. Nada.


Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia,


com a minha noite que nem sempre é noite


como a alma quer.


 


Não sei caminhos de cor.


 


In “Mar de Sargaços”


Atlântida – Coimbra


 


Fernando Namora


(1919 – 1989)

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