CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

NÃO MEU, NÃO MEU É QUANTO ESCREVO


 


Não meu, não meu é quanto escrevo.


A quem o devo?


De quem sou o arauto nado?


Por que, enganado,


Julguei ser meu o que era meu?


Que outro mo deu?


Mas, seja como for, se a sorte


For eu ser morte


De uma outra vida que em mim vive,


Eu, o que estive


Em ilusão toda esta vida


Aparecida,


Sou grato Ao que do pó que sou


Me levantou.


(E me fez nuvem um momento


De pensamento.)


(Ao que de quem sou, erguido pó,


Símbolo só.)


 


Cancioneiro


 


In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”


3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses


Editora Ulisses


 


Fernando Pessoa


1888 – 1935

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