CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

INTERVALO


 


Quem te disse ao ouvido esse segredo

Que raras deusas têm escutado –

Aquele amor cheio de crença e medo

Que é verdadeiro só se é segredado?...

Quem te disse tão cedo?  


 


Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.

Não foi um outro, porque o não sabia.

Mas quem roçou da testa teu cabelo

E te disse ao ouvido o que sentia?

Seria alguém, seria?


 


Ou foi só que o sonhaste e eu te o sonhei?

Foi só qualquer ciúme meu de ti

Que o supôs dito, porque o não direi,

Que o supôs feito, porque o só fingi

Em sonhos que nem sei?  


 


Seja o que for, quem foi que levemente,

A teu ouvido vagamente atento,

Te falou desse amor em mim presente

Mas que não passa do meu pensamento

Que anseia e que não sente?  


 


Foi um desejo que, sem corpo ou boca,

A teus ouvidos de eu sonhar-te disse

A frase eterna, imerecida e louca –

A que as deusas esperam da ledice

Com que o Olimpo se apouca.  


 


 


In "Cancioneiro – Fernando Pessoa – Antologia Poética"


3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses


Editora Ulisses


 


Fernando Pessoa


1888 – 1935


 


 

0