CÁ TE ESPERO...

Recordando... Fernando Pessoa

A MINHA VIDA É UM BARCO ABANDONADO


 


A minha vida é um barco abandonado


Infiel, no ermo porto, ao seu destino.


Por que não ergue ferro e segue o atino


De navegar, casado com o seu fado?


 


Ah! falta quem o lance ao mar, e alado


Torne seu vulto em velas; peregrino


Frescor de afastamento, no divino


Amplexo da manhã, puro e salgado.


 


Morto corpo da acção sem vontade


Que o viva, vulto estéril de viver,


Boiando à tona inútil da saudade.


 


Os limos esverdeiam tua quilha,


O vento embala-te sem te mover,


E é para além do mar a ansiada Ilha.


 


Cancioneiro


 


In “Fernando Pessoa – Antologia Poética”


3ª. Edição – Biblioteca Ulisses de Autores Portugueses


Editora Ulisses


 


Fernando Pessoa


1888 – 1935

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